segunda-feira, março 19, 2007

Postagem Politicamente Incorrecta...

Já vou ficando farto das críticas que fazem aos nossos políticos… Parece que descobriram a pólvora! Há quantos anos andam a “descobrir” que eles não passam de títeres e oportunistas sem escrúpulos, ao serviço do poder económico e, cada vez mais, do financeiro, global?
E muitas vezes tais críticas vêm “fulanizadas”, como se um indivíduo pudesse determinar os mecanismos do sistema. Salazares? Hitleres? Pinochetes? Passeiam-se por aí centenas deles e são inofensivos… O problema é quando são arvorados em Líderes quando tal convém ao grande capital financeiro internacional e quando afinal, as suas “maldades” são, consciente ou inconscientemente, toleradas e, até, suportadas por todos nós!
Eu penso sempre se quem faz essas críticas, não será parvo, ingénuo ou oportunista, quando as faz sem denunciar

O Monstro Difuso

Nascido algures na bruma de outras eras
Diferente eu sou de todas as quimeras
De todos os dragões alados do levante
De olhos sanguíneos e boca flamejante
De todas as serpentes astutas e infernais
De lendas bolorentas e ancestrais
Da Hidra de Lerna de cabeças várias
De todos os mostrengos e todas as alimárias
Não sou delírio vão, nem grito de profetas
Nem génio de pintor, nem sonho de poetas
Mas sou realidade…e impossível
Será que exista outra mais terrível
Meus braços, invisíveis e diferentes
De todos os monstros, de todos os viventes
São os vossos braços…e vos digo mais
Ando com as pernas com que vós andais
Depois que percorri os séculos um a um
Cheguei enfim aqui… a lado nenhum
Tive pais, padrinhos e parentes
Sou filho de sábios, génios e valentes
Usei chapéu alto e usei gravata
Fui socialista e fui fascista, fui padre e fui pirata
Esclavagista e liberal, anarquista e democrata
Meu nome, não importa, minha missão é esta
Sou do mundo a derradeira besta
A Lei morreu, a Ordem se esfumou
E a Nova Ordem é a desordem que eu sou
O Absurdo total, o Crime do mundo
O pântano e a voragem onde me afundo
A miragem doirada de toda a podridão
O Tartufo supremo da Civilização
A tragédia que avança…o lamaçal
A flor sublime da estrumeira global
Em mim, a paz e a guerra são iguais
Dar-vos-hei a que achar que vale mais
E caso valha mais a gente morta
Que morra quem morrer que eu não me importa
Arrancarei olhos, rins e corações
A gente sadia em troca de milhões
E em troca de milhões farei também
A Justiça e a Lei que me convém
Lançarei no lixo o pão que não se come
Enquanto for matando o mundo à fome
A corrupção será sempre o meu estandarte
A minha vida, a minha força, a minha arte
Depois que reduzi o mundo à escravatura
Vos grito a liberdade, o progresso e a fartura
Porque também a própria linguagem
Serve os meus interesses e traz a minha imagem
Mas tudo o que eu prometo é canto de sereias
Porque só a guerra me percorre as veias
Esse monstro que devora inocentes
São as minhas garras, a força dos meus dentes
É o desespero do monstro condenado
A morrer matando quem não é culpado
Farei prostitutas e drogados aos milhões
Porque eu próprio sou a droga das nações
Nações que, no fundo, não passam de utopia
Porque não há fronteiras na minha hegemonia
Sou o desespero que cada um transporta
A vida desiludida que já nasce morta
Sou eu o Terrorismo, a última invenção
Dos génios do Mercado p’ra minha salvação
Sem terrorismo, anti-terrorismo, fome e guerra
Não poderei eu, um minuto mais, habitar a Terra
Não sou americano, nem árabe nem judeu
Não sou homem-bomba, nem crente, nem ateu
Sou apenas eu, e ninguém mais forte
Poderá deter-me a não ser a morte
Até na paz breve que a vida vos consente
Farei eu morrer milhões de gente
Porque eu sou a morte e não sou a vida
Sou o aborto, o anti-aborto, a pedofilia e a sida
O desemprego e a falência, a insegurança e as prisões
Os Tribunais, o Direito a Justiça e os Ladrões
E sou ainda na gíria universal
O Iluminismo, a Civilização e a Moral
Sou mil polícias a cada esquina da cidade
Obedecendo cegos à minha vontade
Sou a democracia e a modernidade
Sou o dinheiro e o Mercado. Sou o Valor
Não tenho pátria, nem raça, nem cor
Todos os deuses antigos e modernos
Todos os paraísos e todos os infernos
Pobres e ricos, palhaços, presidentes e reis
Têm um valor… e esse Valor são as minhas leis
Nada tenho de humano, sou cego, surdo e mudo
Indiferente à dor, à guerra à morte, a tudo
Sou o Valor global, real e soberano
Que transforma em besta cada ser humano

Leonel Santos
Lisboa, Março de 2004
Este poema, foi feito por um Poeta Revolucionário (quase desconhecido, portanto). Excepcionalmente, copiei e publiquei isto aqui, porque ilustra magistralmente o que é preciso denunciar e como homenagem ao seu autor. Tirei o poema e biografia daqui, onde poderão encontrar mais poemas de L.S.:

Leonel Santos: Nascido no lugar de Pinheirinhos do concelho de Sesimbra a 22 de Novembro de 1935 L.S. é operário, exerce a profissão de canteiro e trabalhou em várias pedreiras e oficinas de Sesimbra, Cascais e Lisboa, entre outras.
Interessado pela cultura proletária leu, estudou e acompanhou esse movimento principalmente após Abril de 1974, tendo escrito vários poemas e publicado o livro "Nós Povo" em 1975, (Editora Vento Leste), baseado essencialmente nas suas experiências pessoais e colectivas.

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