domingo, agosto 24, 2014

Silêncio Interno

Achei este texto interessante, não me lembro onde, escrito em espanhol. Desconheço o autor. Resolvi traduzir para português e colocar aqui. Penso que poderá ajudar os leitores a encarar a vida com mais presença de espírito...

A Sabedoria do Silêncio Interno 
(Texto Taoísta)


Fala só quando for necessário.
Pensa no que vais dizer antes de abrir a boca.
Sê breve e preciso já que cada vez que deixas sair uma palavra,
Deixas ao mesmo tempo sair uma parte do teu "Chi".  

Desta maneira aprenderás a desenvolver a arte de falar sem perder energia.
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Não te lamentes nem uses no teu vocabulário
Palavras que projectem imagens negativas
porque ocorrerá em torno de ti
tudo o que criaste com as tuas palavras carregadas do "Chi". 

Se não tiveres algo de bom, verdadeiro e útil a dizer,
é melhor calares-te e não dizeres nada.
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Aprende a ser como um espelho: Escuta e reflecte a energia.
O próprio Universo é o melhor exemplo de um espelho
que a natureza nos deu,
porque o Universo aceita incondicionalmente os nossos pensamentos,
as nossas emoções, as nossas palavras,
as nossas acções e nos envia o reflexo de nossa própria energia
segundo as diversas circunstâncias
que se apresentam na nossa vida.
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Se te identificas com o sucesso, serás bem sucedido.
Se te identificas com a fracasso, terás fracassos. 
Assim podemos ver que as circunstâncias que vivemos
são apenas manifestações externas
do conteúdo da nossa fala interna.
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Aprende a ser como o Universo,
a escutar e a reflectir a energia
sem emoções pesadas e sem preconceitos.
Porque sendo como um espelho sem emoções
nós aprendemos a falar de outra maneira.
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Com o poder mental calmo e em silêncio,
sem oportunidade de se impor
com as suas opiniões pessoais
e evitando reacções emocionais excessivas,
simplesmente permite uma comunicação sincera e fluida.
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Não te dês muita importância, e sê humilde,
porque quanto mais te mostras superior,
inteligente e prepotente,
mais te tornas prisioneiro da tua própria imagem
e mais vives num mundo de tensão e de ilusões. 


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Não compitas com os outros, torna-te como a terra
que nos alimenta, que nos dá o que necessitamos.
Ajuda os outros a perceber as suas qualidades,
A perceber as suas virtudes, a brilhar.
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O espírito competitivo faz o ego crescer
e cria conflitos inevitavelmente. 

Tem confiança em ti mesmo,
preserva tua paz interna
Evitando entrar nas provocações
e nas armadilhas dos outros.
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Nunca faças promessas que não possas cumprir.
Não te comprometas facilmente.
Se ages precipitadamente
sem tomares profunda consciência da situação,
Vais criar complicações.  

As pessoas não têm confiança em quem diz muito facilmente “sim”,
porque sabem que esse famoso “sim” não é sólido e que lhe falta valor.
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Toma um momento do silêncio interno
para considerar todos os aspectos da situação presente
e toma as tuas decisões depois disso.

Assim desenvolverás a confiança em ti e a sabedoria.
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Se realmente houver algo que não sabes,
ou se não tens a resposta a uma pergunta que te fizeram, aceita-o. 

O fato de não se saber é muito incomodo para o ego
porque ele gosta de saber tudo, ter sempre razão
e dar sempre a sua opinião muito pessoal.  

Na realidade, o ego não sabe nada,
apenas crê que sabe.
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Evita julgar e criticar,
o Tao é imparcial e sem julgamentos,
não critica as pessoas,
tem uma compaixão infinita e não conhece a dualidade.

Sempre que julgas alguém
a única coisa que fazes é expressar a tua opinião muito pessoal
e é uma perda da energia,
é puro ruído. 

Julgar é uma maneira esconder nossas próprias fraquezas.
A pessoa sábia tolera tudo e não dirá nem uma palavra.
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Recorda que tudo que te incomoda nos outros
é uma projecção de tudo o que
ainda não resolveste em ti mesmo  

Deixa que cada um resolva os seus próprios problemas
e concentra a tua energia na tua própria vida.
Ocupa-te de ti mesmo, não te defendas.
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Quando fazes por defender-te
Na realidade estás a dar demasiada importância
às palavras de outros
e dás mais força ao agressor. 

Se aceitas não te defender, mostras
que as opiniões dos outros não te afectam,
Pois não passam de opiniões
e que não necessitas de convencer os outros para seres feliz.
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Sê discreto, preserva tua vida intima
 Desta maneira livras-te da opinião dos outros
E viverás tranquilo, tornando-te
invisível, misterioso, indefinível,
insondável como o Tao.

O teu silêncio interno torna-te impassível.
Faz regularmente o jejum da palavra para educares o teu ego
que tem o mau costume de  falar todo o tempo
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Pratica a arte de não falar.
Tira um dia da semana para te absteres de falar.
Ou pelo menos umas horas do dia
de acordo com o que permitir a tua organização pessoal.
É um exercício excelente para conhecer
e aprender o universo do Tao ilimitado
em vez de tentar explicar por palavras o que é o Tao. 
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Progressivamente desenvolverás a arte de falar sem falar
e a tua natureza interna verdadeira
substituirá a tua personalidade artificial,
deixando aparecer a luz de teu coração
e o poder da sabedoria do silêncio.
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Graças a esta força atrairás para ti tudo o que necessitas
para realizar-te e libertar-te completamente. 

Mas é preciso cuidar que o ego não se imiscua.
O poder mantém-se enquanto o ego fica calmo e em silêncio.
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Se o teu ego se impõe e abusa desse poder
Esse mesmo poder converte-se em veneno,
e todo teu ser se envenenará rapidamente.
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Fica em silêncio, cultiva o teu próprio poder interno.
Respeita a vida dos outros e de tudo o que existe no mundo.
Não tentes forçar, manipular ou controlar os outros.
Converte-te no teu  próprio mestre e deixa os outros ser que são,
ou o que têm  capacidade de ser.
Dito por outras palavras, vive seguindo a via sagrada do Tao.
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O Universo abençoa-te  sempre!    

sábado, agosto 02, 2014

O Poder das Palavras

As palavras têm poder - dizem-no escritores, críticos, políticos, poetas... Isso bateu-me forte enquanto, num domingo de Inverno esperava a chegada do METRO: "10:30" assinalava o quadro luminoso de informações - 10 minutos e 30 segundos de espera, portanto.


Tempo para observar os circunstantes, os anúncios, e aproximo-me do quadro das informações do METRO montado na parede - Direitos e deveres do utente, horários... Pois, HORÁRIOS! E deparo com duas palavrinhas no meio daquilo tudo: "DIAS ÚTEIS". Sacanas, cobras venenosas, disfarçadas de mera informação, mas automaticamente ferrando o leitor dos quadros. "DIAS ÚTEIS"!
Examinando o quadro, chego à conclusão que os tempos de espera nos dias úteis são de quase metade dos tempos de espera nos outros dias que não "dias úteis", que a frequência destes, de manhã cedo, nos chamados "dias úteis" é muito maior que durante o fim da tarde e que essas frequências diminuem ainda mais aos sábados e domingos.

Ora que grande descoberta! Pois desde que existe METRO em Lisboa, desde os meus 12 anos, que eu sei, por experiência própria, que aos sábados e domingos, TODOS os transportes públicos se rarefazem. Então, onde está a novidade??
É que agora, com o desmantelamento da nossa economia, com a gestão predadora do trabalho e das nossas riquezas, com as imposições da Tróica, o desemprego, subemprego e trabalho escravo, percebe-se claramente que o tempo que temos usado nos dias e horas em que não trabalhamos é que é verdadeiramente útil para nós! Enfim, pode-se agora sentir, bem sentido, que o "ÚTIL" tinha um dono. Ou seja, que fazia sentido perguntar: ÚTEIS PARA QUEM?!  A quem servem os transportes públicos? 

Pois é, aquelas duas palavrinhas, DIAS ÚTEIS, ali estavam, poderosas, portões fechados e óbvios que se passam sem sequer se pensar no que escondem.
Pois, naquele "dia inútil de domingo", naqueles "inúteis" minutos e segundos de espera, também senti, mais forte que nunca, que o nosso precioso tempo, nesta sociedade, tem um dono, que transportes e palavras o servem e protegem, entretendo os trabalhadores em tarefas e em torno de interesses que, a maior parte das vezes, nada tem a ver com os seus...


sábado, julho 26, 2014

Elucubração Poética

No campeonato Universal
Tudo o que tu idealizas
Tem existência real
Pois há infinitas bolas
e infinitas balizas...

Sobre o princípio de que "tu crias a realidade", já referi um texto de Ken Wilber refutando-o, a propósito do filminho "What The Bleep Are We". O link para uma tradução brasileira do texto de Ken Wilber está aqui: 

http://www.ariray.com.br/textossaladeleitura/what_bleep_kw_ariray.pdf

Devo dizer que concordo com ele. Na verdade, o ser humano não pode criar uma realidade que já existe! Ora, tudo o que possas conceber, num Universo infinito no tempo e no espaço, já existe! A questão que se põe não me parece que seja então de como criar uma realidade mas, sim, de como escolher a realidade que queremos viver...

Sinteticamente, o meu poema que encima este apontamento explica o que penso, mas para quem precisa de uma demonstração mais racional, poderá procurar neste blog as minhas antigas "Elucubrações", desde esta última para trás, aqui: 

http://aleddd.blogspot.pt/2009/10/ainda-mais-elucubracoes-pois-entao.html

E, para ensaiar, que tal experimentarmos ir para a realidade desta foto, abaixo?


domingo, maio 04, 2014

O BLOG DORMENTE – RAZÕES PARA ACORDAR…?

(Túmulo de D. João das Regras, na Igreja do Rosário, em S. Domingos de Benfica, Lisboa)

Em Abril de 2010 escrevia eu isto, aqui:

“Nas minhas viagens pela NET, abordo praias maravilhosas, vou a espectáculos fantásticos, descubro ilhas e continentes. Algumas coisas vou trazendo para aqui, isto é a minha ucharia onde guardo algumas preciosidades trazidas das viagens, embora para compartilhar com os visitantes bem intencionados.
Agora, vou contar-lhes desta preciosa tertúlia em que se transformou a troca de e-mails transcontinental com o meu amigo Fábio (vejam o link aqui ao lado). Ele manda e-mails com os endereços a descoberto e o pessoal responde sobre os temas propostos, sendo a resposta depois, novamente distribuída. Isto à mistura com músicas lindas, biografias de compositores e intérpretes e outras coisas de encantar. Acho que com isto o Fábio inventou mais uma nova forma de comunicação pela net que supera youtubes, nings, orkutes, facebookes e o novel tweeter. Pelo menos em potencialidades. Vamos ver no que dá este fogo-de-artifício comunicacional…!”
(Texto tirado daqui)

É óbvio que desconhecia, na altura, o que era, na realidade, o Facebook. Só o comecei a descobrir mais tarde e cheguei à conclusão que o Face era, afinal, o tal fogo-de-artifício comunicacional que aqui referia.
Como devem calcular, mergulhei nele pouco depois, em 2012, com todo o entusiasmo. O meu blog era uma espécie de diário íntimo, mas aberto à intervenção crítica de amigos e interessados. No entanto, no campo da interactividade que eu queria, estava longe de me satisfazer. E o Face veio preencher essa lacuna!
Então, o Face foi, durante estes dois anos, a tertúlia, o café onde me encontrei com os meus amigos em amena cavaqueira. Interactividade à farta, talvez um pouco superficial demais...! Na verdade, volto a sentir necessidade de, calmamente, reflectir sobre “As maluquices que me passam p’la cabeça” e aprofundá-las. Talvez com ligações recíprocas entre o Face e o blog, se complete a minha necessidade intelectual e social. Vou acordar o blog?! 




domingo, abril 29, 2012

Depois de um longo sono, aqui vai o despertar do "LOUCOSLÚCIDOS"...

Sobre este poema, evocativo da chamada "Revolução dos Cravos", convém esclarecer os leitores não portugueses de que "Laranja" é como se apelida o partido actualmente no governo; E a rosa é o símbolo do partido anteriormente no governo; finalmente, o cravo é ostentado na lapela de tudo o que é reaccionário e pseudo-democrata nestas comemorações...



Cravo I


Este é um cravo vivo
Plantei-o na minha varanda
E já agora lhes digo
Como este País anda
Só uma coisa me ocorre:
Enquanto o cuidar, não morre


Cravo II

Adoro cravos e rosas
E gosto de laranja, tanto;
Mas pessoas venenosas
Aproveitam o seu encanto

Pobres flores e pobre fruta
Quietas, não se defendem
Do todos os filhos da puta
Que nesses símbolos se escondem....!

segunda-feira, dezembro 19, 2011

Umas Fotos e Versinhos Para Descontrair

Tirei estas fotos, comentei-as com uns versinhos e ponho aqui, para o pessoal descontrair. Depois de lerem, tentem adivinhar onde as tirei... (Uma dica: foram tiradas todas em Lisboa)

E, já agora, volto a lembrar:

NÃO TENHAM MEDO: O UNIVERSO É PERFEITO, POR LINHAS TORTAS ESCREVENDO DIREITO...!

Mar sereno

A respeito desta minha imagem
Capturada num momento mais feliz
Na Lisboa do Tejo, à sua bela margem,
Lhes conto o que esta cena me diz
Sobre o Mundo, um fuste pombalino
E sobre o fuste, um mundo mais pequeno
E sobre este, sem pensar no seu destino
A gaivota vigia o mar sereno..
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Surpresa na Cidade
Dezembro, numa manhã fria
Um feixe de Sol nascente
Numa nesga verde sombria
Faz da flor, tocha incandescente!

  Quem diria que esta planta rasteira
Tão discreta e apagada 
Se floresce qual fogueira
Pelo Sol iluminada...

Lírio-Tocha
(Kniphofia uvaria)
Quem quiser saber mais sobre esta planta, pode espreitar aqui:
http://www.paghat.com/kniphofia_pfitzer.html
(Fotos e versos de Álvaro Costa)

sexta-feira, setembro 30, 2011

O ÓPIO DO POVO!

Recebi recentemente um e-mail do meu amigo Fábio Oliveira
(http://fabioxoliveira.blog.uol.com.br/)
que, do Brasil, nos chamou a atenção para Ken Wlber, o meu filósofo recente favorito (pesquisem algumas traduções de textos dele que aqui publiquei). Junto com a foto, escreveu o Fábio:


“Um dos maiores filósofos vivos do mundo, o norte-americano Ken Wilber, já explicou, em termos simples e acessíveis, a causa da decadência espiritual do Ocidente”.

E cita este texto:

A DECADÊNCIA ESPIRITUAL DO OCIDENTE
Ken Wilber

Basicamente: o movimento do Iluminismo, na ânsia de aniquilar a Igreja, que amedrontava a todos e que matou e torturou milhões de pessoas atra-vés da Inquisição, suprimiu toda e qualquer consciência religiosa, confun-dindo a Espiritualidade humana com apenas aquela espiritualidade de nível infantil, mítica, então vigente aos cidadãos dos séculos XVIII e XIX.
Esta revolta contra Deus deveria ter sido apenas uma revolta contra o Deus mítico, infantil, da época, mas acabou atingindo todas as formas de manifestações religiosas, formas inferiores e, principalmente, as formas superiores de espiritualidade.
O ser humano (individualmente e colectivamente), segundo hoje os mais avançados estudos, precisa – para própria evolução – se permitir o desenvolvimento de seus níveis de consciências, que é conseguido pelo desenvolvimento de suas inteligências múltiplas, tais como: cognitiva, moral, cinestésica, estética, emocional e espiritual.
Se alguma das linhas de desenvolvimento (ou inteligências múltiplas) não se desenvolve, pode afectar o desenvolvimento da inteligência como um todo.
A inteligência espiritual é aquela que responde à pergunta fundamental : “o que é a mais importante das coisas que tenho consciência?”.
Ao retirar do mundo intelectual a espiritualidade como um todo, o Ocidente, de certo modo, se emburreceu. Limitou seu crescimento intelectual, pois cada nível de consciência tem como reflexo certo nível de desenvol-vimento cognitivo, moral, estético e espiritual.
Sem o aspecto espiritual, só se permitiu o desenvolvimento da Cognição (Ciência), da Moral, e da Arte.
Como a religião não era mais ouvida, a Ciência passou a ser o novo deus, que deveria responder às questões fundamentais do ser humano. Tal tarefa não era a tarefa da Ciência, de modo ela não a cumpriu com êxito, daí ocorreu a crise espiritual ocidental.

Excelente texto, que resolvi comentar por aqui, com referência à crise social e económica dos tempos modernos, que urge resolver.

Já foquei bastante o problema aqui no blog, mas este texto vem fortalecer as minhas convicções sobre o tema. Para os interessados, deixo no final duas ligações para os principais textos aqui existentes onde discorro sobre o tema da religião, espiritualidade e política dos povos.
O drama da inexistência de Deus, “A Náusea” de J. P. Sartre, perseguiu o homem moderno, órfão do Pai todo-poderoso. Essa “orfandade” foi convertida em força libertadora pelos filósofos do Comunismo, para quem a religião era “O Ópio do Povo”, e que a substituíram pela Ciência. No campo da política, a Ciência ia permitir lançar e desenvolver a sociedade com a mesma perfeição e eficácia com que se construía uma locomotiva, um transatlântico…
E tal como na produção de máquinas e artefactos, também essa tecnologia da politica teve desenvolvimentos espectaculares, com a vitória da revolução comunista na Rússia e na China, provando a sua validade.
Porém, tal como o Titanic, expoente máximo da técnica da altura, também o comunismo na Rússia e na China se foi afundando. Mal da técnica? De modo nenhum; mal dos homens que a conduziam…!
Mao-Tsé-Tung percebeu isso, viu que havia que mudar a mentalidade do ser humano, não se podia forçar ou impor uma causa justa por métodos brutais, nem mudar mentalidades com pelotões de fuzilamento. Vislumbrou, um pouco, aquilo que fazia falta e tentou supri-lo.
Mas, também ele ainda pertencia à velha corrente do “Religião – Ópio do Povo”. Rejeitando, e bem, o Deus primitivo, mítico, ancestral, não percebeu a alternativa, e acabou por ver o seu combate – “A Grande Revolução Cultural” também afundada no abismo do novo Nacional-Capitalismo de Estado, dominante na China.
Na verdade, a religião sempre tinha sido usada como ópio do povo e tinha que ser posta totalmente de lado. Mas, na religião, havia talvez algo a salvar…
E aqui entra o conceito de Espiritualidade, essencial para que se possa construir uma sociedade justa, num regime livre de exploração do homem pelo homem, sem que os seus construtores se transformem em novos exploradores.
Isto é referido noutras publicações neste blog, incluindo uma magistral explicação do Osho, conforme a tradução que aqui publiquei. Os que ainda não a leram, podem ir lá por estas ligações:

http://aleddd.blogspot.com/search?updated-min=2011-04-01T00%3A00%3A00%2B01%3A00&updated-max=2011-05-01T00%3A00%3A00%2B01%3A00&max-results=1























quarta-feira, setembro 21, 2011

III parte (Conclusão) - MATERIALISMO HISTÓRICO

Nos termos da minha postagem de 11 de Setembro, para a qual remeto, por aqui: 
http://aleddd.blogspot.com/2011/09/muro-de-elucubracoes.html
Recordando que este texto surge como essencial para a compreensão da actual crise no mundo e em Portugal - Conforme esta pintura mural recentemente feita numa rua de Lisboa:

Junto a seguir a III e última parte do texto. Quem estiver interessado pode agora reunir as 3 partes publicadas e ficar com o livro completo.
Caso pretendam, poderão também solicitar-me por e-mail o texto completo em ficheiro word.

3º - O Materialismo Histórico.

Falta esclarecer uma questão: o que devemos entender, do ponto de vista do materialismo histórico, por estas condições da vida material da sociedade, que determinam em última análise, a fisionomia da sociedade, as suas ideias, as suas opiniões, as suas instituições políticas, etc.?

O que são estas condições de vida material da sociedade? Quais são os seus traços característicos?

É certo que a noção de “condições da vida material da sociedade” compreende, antes de mais nada, a natureza que rodeia a sociedade, o meio geográfico que é uma das condições necessárias e permanentes da vida material da sociedade e que, evidentemente, influencia o desenvolvimento da sociedade. Qual é o papel do meio geográfico no desenvolvimento social? Não será o meio geográfico a força principal que determina a fisionomia da sociedade, o carácter do regime social dos homens, a passagem de um regime a outro?

A esta pergunta, o materialismo histórico responde negativamente.

O meio geográfico é incontestavelmente uma das condições permanentes e necessárias do desenvolvimento da sociedade e é evidente que influencia este desenvol-vimento: acelera ou retarda o curso do desenvolvimento social. Mas esta influência não é determinante, pois as transformações e o desenvolvimento da sociedade se realizam incomparavelmente mais depressa do que as transformações e o desenvolvimento do meio geográfico. Em três mil anos, a Europa viu sucederem-se três regimes sociais diferentes: a comuna primitiva, a escravatura, o regime feudal; e no Leste da Europa, no território da U.R.S.S., houve mesmo quatro.

Ora, no mesmo período, as condições geográficas da Europa, ou não mudaram em nada, ou mudaram em tão pouco que os geógrafos se abstêm de falar disso. E isto é aceito assim. Para que se produzam transformações, por pequenas que sejam, no meio geográfico, são necessários milhões de anos, enquanto bastam algumas centenas de anos ou cerca de dois mil anos para que se verifiquem transformações muito importantes no regime social dos homens.

Por aqui se vê que o meio geográfico não pode ser a causa principal, a causa determinante do desenvolvimento social, pois o que permanece quase imutável durante dezenas de milhares de anos, não pode ser a causa principal do desenvolvimento daquilo que está sujeito a mudanças radicais no espaço de algumas centenas de anos.

Prossigamos. É certo, em seguida, que também o crescimento e a densidade da população, fazem parte da noção de “condições da vida material da sociedade”, pois os homens são um elemento indispensável das condições da vida material da sociedade, e sem um mínimo de homens não se poderia conceber nenhuma vida material da sociedade. Não será o crescimento da população a força principal que determina o carácter do regime social dos homens?

A esta pergunta, o materialismo histórico responde também negativamente.

Com certeza, que o crescimento da população exerce influência sobre o desenvolvimento social, facilita-o ou atrasa-o; mas não pode ser a força principal do desen-volvimento social e a influência que exerce sobre este não pode ser determinante, pois o crescimento da população, por si só, não nos dá a chave deste problema: por que é que a tal regime social sucede precisamente tal regime social novo, e não outro? Por que é que à comuna primitiva sucede precisamente a escravatura? A escravatura, o regime feudal? Ao regime feudal, o regime burguês, e não qualquer outro regime?

Se o crescimento da população fosse a força determinante do desenvolvimento social, uma maior densidade da população deveria necessariamente dar origem a um tipo superior do regime social. Mas na realidade, não se verifica isto. A densidade de população na China é quatro vezes mais elevada do que a dos Estados Unidos; contudo, os Estados Unidos estão a um nível mais elevado do que a China do ponto de vista do desenvolvimento social: na China existe ainda um regime semi-feudal, enquanto os Estados Unidos atingiram, desde há muito tempo, o estado superior do desenvolvimento capitalista. A densidade da população, na Bélgica, é dezanove vezes mais elevada que a dos Estados Unidos e vinte e seis vezes mais elevada que a da U.R.S.S.; contudo, os Estados Unidos estão a um nível mais elevado que a Bélgica do ponto de vista do desenvolvimento social; e em relação à U.R.S.S., a Bélgica está atrasada de toda uma época histórica: na Bélgica domina o regime capitalista, enquanto a U.R.S.S. já acabou com o capitalismo; instituiu o regime socialista.

Resulta daí, que o crescimento da população não é, e não pode ser, a força principal do desenvolvimento da sociedade, a força que determina o carácter do regime social, a fisionomia da sociedade.

a) Mas então qual é pois, no sistema das condições da vida material da sociedade, a força principal que determina a fisionomia da sociedade, o carácter do regime social, o desenvolvimento da sociedade de um regime para outro?

O materialismo histórico considera que esta força é o modo de obtenção dos meios de existência necessários à vida dos homens, o modo de produção dos bens materiais: alimentos, vestuário, calçado, habitação, combustível, instrumentos de produção, etc., necessários para que a sociedade possa viver e desenvolver-se.

Para viver, é preciso dispor de alimentos, vestuário, calçado, uma habitação, combustível, etc.; para ter estes bens materiais, é preciso produzi-los, e para os produzir, é necessário dispor dos instrumentos de produção com a ajuda dos quais os homens produzem os alimentos, o vestuário, o calçado, a habitação, o combustível, etc.; é necessário produzir estes instrumentos, é preciso nos servirmos deles.

Os instrumentos de produção com a ajuda dos quais são produzidos os bens materiais, os homens que manejam estes instrumentos de produção e produzem os bens materiais, graças a uma certa experiência da produção e aos hábitos de trabalho, eis os elementos que, tomados em conjunto, constituem as forças produtivas da sociedade.

Mas as forças produtivas não são senão um aspecto da produção, um aspecto do modo de produção, aquele que exprime o comportamento dos homens em relação aos objectos e às forças da natureza de que eles se servem para produzirem os bens materiais. O outro aspecto da produção, o outro aspecto do modo de produção, são as relações entre os homens no processo da produção, as relações de produção existentes entre os homens. Na sua luta com a natureza, que eles exploram para produzir os bens materiais, os homens não estão isolados uns dos outros; produzem em comum, em grupos, em associações. É por isso que a produção é sempre, e sejam quais forem as condições, uma produção social. Na produção dos bens materiais, os homens estabelecem entre eles tais ou tais relações de produção. Estas últimas podem ser relações de colaboração e de entreajuda entre homens livres de toda e qualquer exploração; podem ser relações de dominação e submissão; podem ser, enfim, relações de transição de urna forma de relações de produção a outra. Mas qualquer que seja o carácter que revestem as relações de produção, estas são sempre, em qualquer regime, um elemento indispensável da produção, assim como as forças produtivas da sociedade.

Na produção, diz Marx, os homens não actuam só sobre a natureza, mas também uns sobre os outros. Só produzem, colaborando de uma maneira determinada e trocando entre eles as suas actividades. Para produzir, entram em determinadas relações uns com os outros, e não é senão nos limites destas relações sociais que se estabelece a sua acção sobre a natureza, que se realiza a produção (Trabalho Assalariado e Capital).

Daí resulta que a produção, o modo de produção engloba igualmente as forças produtivas da sociedade, assim como as relações de produção entre os homens, e é assim a encarnação da sua unidade no processo de produção dos bens materiais.

b) A primeira particularidade da produção, é a de que nunca se mantém num dado ponto por muito tempo; está sempre a transformar-se e a desenvolver-se; além disso, a mudança do modo de produção, provoca inevitavelmente a mudança de todo o regime social, das ideias sociais, das opiniões e instituições políticas; a mudança do modo de produção provoca a modificação de todo o sistema social e político. Nos diferentes graus do desenvolvimento, os homens se servem de diferentes meios de produção, ou mais simplesmente, os homens têm um género de vida diferente. Na comuna primitiva existe um modo de produção; na escravatura, existe um outro; no feudalismo, um terceiro. e assim sucessivamente. O regime social dos homens, a sua vida espiritual, as suas opiniões, as suas instituições políticas diferem, segundo esses modos de produção.

Ao modo de produção da sociedade correspondem, essencialmente, a própria sociedade, as suas ideias e teorias, as suas opiniões e instituições políticas.

Ou mais simplesmente: tal tipo de vida, tal tipo de pensamento.

Isto quer dizer que a história do desenvolvimento da sociedade é, antes de mais, a história do desenvolvimento da produção, a história dos modos de produção que se sucedem ao longo dos séculos, a história do desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção entre os homens.

Assim, a história do desenvolvimento social é, ao mesmo tempo, a história dos produtores dos bens materiais, a história das massas laboriosas que são as forças fundamentais do processo de produção e produzem os bens materiais necessários à existência da sociedade.

Logo, a ciência histórica, se quer ser uma verdadeira ciência, não pode reduzir a história do desenvolvimento social, aos. actos dos reis e dos chefes dos exércitos, aos actos dos “conquistadores” e dos “dominadores” de Estados; a ciência histórica deve, antes de mais, ocupar-se da história dos produtores dos bens materiais, da história das massas laboriosas, da história dos povos.

Portanto, a chave que permite descobrir .as leis da história da sociedade, deve ser procurada não no cérebro dos homens, não nas opiniões e ideias da sociedade, mas no modo de produção praticado pela sociedade, em cada dado período da história, no económico da sociedade.

Por isso, a tarefa primordial da ciência histórica é o estudo e a descoberta das leis da produção, das leis do desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, das leis do desenvolvimento económico da sociedade.

Deste modo, o partido do proletariado, se quer ser um verdadeiro partido, deve, antes de mais, adquirir a ciência das leis do desenvolvimento da produção, das leis do desenvolvimento económico da sociedade.

Portanto, para não se enganar em política, o partido do proletariado deve, no estabelecimento do seu programa, assim como na sua actividade prática, e antes de tudo, inspirar-se nas leis do desenvolvimento da produção, nas leis do desenvolvimento económico da sociedade.

c) A segunda particularidade da produção, é a de que as transformações e o seu desenvolvimento começam sempre pela transformação e pelo desenvolvimento das forças produtivas e, antes de mais nada, pela transformação e desenvolvimento dos instrumentos de produção. As forças produtivas são, por consequência, o elemento mais móvel e mais revolucionário da produção. Em primeiro lugar modifi-cam-se e desenvolvem-se as forças produtivas da sociedade; a seguir, em função e em conformidade com estas modificações, modificam-se as relações de produção entre os homens, as suas relações económicas. Isto não significa, contudo, que as relações de produção não exercem influência no desenvolvimento das forças pro-dutivas, e que estas últimas não dependem das primeiras. As relações de produção, cujo desenvolvimento das forças produtivas, actuam, por sua vez, sobre o desen-volvimento ,das forças produtivas, acelerando-as ou retardando-as. Além disso, importa salientar que as relações de produção não poderiam retardar, por muito tempo, o crescimento das forças produtivas e se manterem em contradição com este desenvolvimento, pois as forças produtivas só podem desenvolver-se completamente se as relações de produção correspondem, ao carácter, ao estado das forças produtivas e dão livre curso ao desenvolvimento destas últimas. É por esta razão que, qualquer que seja o atraso das relações de produção em relação ao desenvolvimento das forças produtivas, devem, mais cedo ou mais tarde, acabar por corresponder - é o que se verifica efectivamente - ao nível do desenvolvimento das forças produtivas, ao carácter destas forças produtivas. Caso contrário, a unidade das forças produtivas e das relações de produção, no sistema da produção, seria seriamente comprometida e se daria uma ruptura no conjunto da produção, uma crise da produção, a destruição das forças produtivas.

As crises económicas nos países capitalistas, onde a propriedade privada capitalista dos meios de produção está em flagrante contradição com o carácter social do processo de produção, com o carácter das forças produtivas, - são um exemplo do desacordo entre as relações de produção e o carácter das forças produtivas, um exemplo do conflito que as instiga à luta. As crises económicas que conduzem à destruição das forças produtivas são o resultado deste desacordo; além disso, este próprio desacordo é a base económica da revolução social chamada a destruir as relações de produção atuais e a criar novas relações adequadas ao carácter das forças produtivas.

Pelo contrário, a economia socialista na U.R.S.S., onde a propriedade social dos meios de produção está em perfeito acordo com o carácter social do processo de produção, e onde, por conseguinte, nem há crises económicas, nem destruição das forças produtivas, é um exemplo do acordo perfeito entre as relações de produção e o carácter das forças produtivas.

Por isso, as forças produtivas não são apenas o elemento mais móvel e mais revolucionário da produção. São também o elemento determinante do desenvolvimento da produção.

Tais são as forças produtivas, tais devem ser as relações de produção.

Se o estado das forças produtivas indica quais os instrumentos de produção com os quais os homens produzem os bens materiais que lhes são necessários, o estado das relações de produção mostra na posse de quem se encontram os meios de produção (a terra, as florestas, a água, o subsolo, as matérias-primas, os instrumentos de produção, as construções de exploração, os meios de transporte e de comunicação, etc.); à disposição de quem se encontram os meios de produção, à disposição de toda a sociedade, ou à disposição de determinados indivíduos, de grupos ou de classes que se servem deles para explorar outros indivíduos, grupos ou classes.

Eis aqui o quadro esquemático do desenvolvimento das forças produtivas desde os tempos mais recuados, até aos nossos dias: transição dos utensílios de pedra aos de metal (machado de ferro, arado com relha de ferro, etc.) e, a seguir passagem à cultura das plantas, à agricultura); novo aperfeiçoamento dos utensílios de metal para trabalhar os materiais, aparecimento da forja a sopro e da olaria e, a seguir, desenvolvimento das profissões manuais, separação destas e da agricultura, desenvolvimento das profissões manuais independentes e depois manufactura; transição dos instrumentos de produção artesanal à máquina e transformação da produção artesanal-manufaturada, em indústria mecanizada; transição do sistema de máquinas e aparecimento da grande indústria mecanizada moderna: tal é o quadro de conjunto, muito incompleto, do desenvolvimento das forças produtivas da sociedade ao longo da história da humanidade. Daqui resulta que o desenvolvimento e aperfeiçoamento dos instrumentos de produção foram realizados pelos homens, que têm uma relação com a produção, e não independentemente dos homens. Assim, ao mesmo tempo que se transformam e desenvolvem os instrumentos de produção, os homens - elemento essencial das forças produtivas - se transformam e desenvolvem igualmente; a sua experiência de produção, os seus hábitos de trabalho, a sua capacidade para manejar os instrumentos de produção se transformaram e desenvolveram.

Foi de acordo com estas transformações e com este desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, ao longo da história, que mudaram e se desenvolveram as relações de produção entre os homens, as suas relações económicas.

A história conhece cinco tipos fundamentais de relações de produção: a comuna primitiva, a escravatura, o regime feudal, o regime capitalista e o regime socialista.

No regime da comuna primitiva, a propriedade colectiva dos meios de produção forma a base das relações de produção, o que corresponde, no essencial, ao carácter das forças produtivas neste período. Os utensílios de pedra, assim como o arco e as flechas aparecidos mais tarde, não permitiam aos homens lutar isoladamente contra as forças da natureza e os animais de rapina. Para colher os frutos nas florestas, para pescar, para construir qualquer habitação, os homens eram obriga-dos a trabalhar em comum se não queriam morrer de fome ou tornarem-se vítimas dos animais ferozes ou de tribos vizinhas. O trabalho em comum conduziu à propriedade comum dos meios de produção e dos produtos. Nesta altura, ainda não se tem a noção da propriedade privada .dos meios de produção, salvo a propriedade individual de alguns instrumentos de produção, que são simultaneamente armas de defesa contra os animais de rapina. Aqui não há exploração, nem classes.

No regime de escravatura, é a propriedade do dono dos escravos sobre os meios de produção e sobre o trabalhador - o escravo, que ele pode vender, comprar, matar como se fosse gado -, que forma a base de relação de produção. Estas relações de produção correspondem, no essencial, ao estado das forças produtivas, neste período. Em lugar dos utensílios de pedra os homens dispõem agora de instrumen-tos de metal; em lugar de uma economia reduzida a uma caça primitiva e miserável, que ignora a criação de animais e a agricultura, aparece a criação de animais, a agricultura, as profissões manuais, a divisão do trabalho entre estes diferentes ramos da produção; vê-se aparecer a possibilidade de. troca de produtos entre indivíduos e grupos, a possibilidade de uma acumulação de riquezas nas mãos de um pequeno número de homens, a acumulação real dos meios de produção nas mãos de uma minoria, a possibilidade da minoria submeter a maioria e a transfor-mação dos membros da maioria em escravos. Aqui, já não há trabalho comum e livre de todos os membros da sociedade no processo da produção; aqui, predomina o trabalho forçado dos escravos, explorados por patrões ociosos.

É por isso que já não há propriedade comum dos meios de produção, nem de produtos. Foi substituída pela propriedade privada. Aqui, o dono dos escravos é o primeiro e o principal proprietário, o proprietário absoluto.

Ricos e pobres, exploradores e explorados, pessoas que têm todos os direitos e pessoas que não têm direito nenhum, uma dura luta de classes entre uns e outros: tal é o quadro do regime da escravatura.

No regime feudal, é a posse do senhor feudal sobre os meios de produção e a sua posse limitada sobre o trabalhador - o servo que o senhor feudal já não pode matar, mas pode vender e comprar -, que formam a base das relações de produção. A propriedade feudal coexiste com a posse individual do camponês e do artesão, dos instrumentos de produção e sobre a sua economia privada, baseada no seu trabalho pessoal. Estas relações de produção correspondem, no essencial, ao estado das forças produtivas neste período. Aperfeiçoamento da fundição e do tratamento do ferro, emprego generalizado da charrua e do trabalho de tecelagem, desenvolvimento contínuo da agricultura da jardinagem, da indústria vinícola, fabrico do azeite, aparecimento das manufacturas ao lado das oficinas de artesões: tais são os traços característicos do estado das forças produtivas.

As novas forças produtivas exigem que o trabalhador dê provas de uma certa iniciativa na produção, de gosto pela obra, de interesse no trabalho. É por essa razão que o senhor feudal, renunciando a um escravo, que não tem interesse no trabalho, é absolutamente desprovido de iniciativa, prefere tratar com um servo que possui a sua própria exploração, os seus instrumentos de produção e que tem algum interesse no trabalho, interesse indispensável para que cultive a terra e pague da sua recolha, ao senhor feudal, uma renda em produtos agrícolas.

Aqui, a propriedade privada continua a evoluir. A exploração é quase tão dura como na escravatura; apenas está camuflada. A luta de classes entre os exploradores e os explorados é a característica essencial do regime feudal.

No regime capitalista, é a propriedade capitalista dos meios de produção que forma a base das relações de produção: a posse dos produtores, dos trabalhadores assalariados, já não existe; o capitalista não pode matá-los nem vendê-los, pois eles estão libertos de qualquer dependência pessoal; mas estão privados dos meios de produção e, para não morrerem de fome, são forçados a vender a sua força de trabalho ao capitalista e a suportar o jugo da exploração. Ao lado da propriedade capitalista dos meios de produção, existe, largamente propagada nos primeiros tempos, a propriedade privada do camponês e do artesão libertos da servidão, sobre os meios de produção, propriedade baseada no trabalho pessoal. As oficinas de artesãos e as manufacturas deram lugar a enormes fábricas apetrechadas com máquinas. Os domínios dos senhores, que eram cultivados com os instrumentos primitivos dos camponeses, deram lugar a poderosas explorações capitalistas geridas na base da ciência agronómica e providas de máquinas agrícolas.

As novas forças produtivas exigem que os trabalhadores sejam mais cultos e mais inteligentes do que os servos ignorantes e embrutecidos; que sejam capazes de compreender a máquina e saibam manejá-la convenientemente. Também os capitalistas preferem tratar com trabalhadores assalariados, libertos dos entraves da servidão, suficientemente cultos para operar convenientemente as máquinas.

Mas para ter desenvolvido as forças produtivas em proporções gigantescas, o capitalismo gerou contradições insolúveis. Ao produzir quantidades cada vez maiores de mercadorias e reduzindo os preços, o capitalismo acentua a concorrência, arruína os pequenos e médios proprietários, os reduz ao estado de proletários e diminui o seu poder de compra; resulta que se torna impossível o escoamento das mercadorias fabricadas. Ao expandir a produção e agrupar, nas enormes fábricas, milhões de operários, o capitalismo dá um carácter social ao processo de produção e com isso mina a sua própria base; pois o carácter social do processo de produção exige a propriedade social dos meios de produção; ora, a propriedade dos meios de produção mantém-se como uma propriedade privada, capitalista, incompatível com o carácter social do processo de produção.

São as contradições irreconciliáveis entre o carácter das forças produtivas e as relações de produção que se manifestam nas crises periódicas de superprodução; os capitalistas, na falta de compradores solvíveis, por causa da ruína das massas de que eles são os verdadeiros responsáveis, são obrigados a queimar géneros de consumo, destruir mercadorias já fabricadas, interromper a produção, destruir as forças produtivas, e, apesar disso, milhões de homens estão desempregados e têm fome, não porque faltem mercadorias, mas porque produziram demasiado.

Isso significa, que as relações de produção capitalistas já não correspondem ao estado das forças produtivas da sociedade, e entraram em contradição insolúvel com estas.

Isso significa que o capitalismo necessita de uma revolução para substituir a actual propriedade capitalista do meios de produção, pela propriedade socialista.

Isso significa que a característica essencial do regime capitalista é uma luta de classes, das mais agudas. entre exploradores e explorados.

No regime socialista que, até este momento, só está estabelecido na U.R.S.S., é a propriedade social dos meios de produção que forma a base das relações de produção. Aqui, já não há exploradores nem explorados. Os produtos são repartidos mediante o trabalho fornecido por cada um e segundo o princípio: “Quem não trabalha, não come”.

As relações entre os homens, no processo de produção, são relações de colaboração fraterna e de entreajuda socialista dos trabalhadores libertos da exploração. As relações de produção estão perfeitamente adequadas ao estado das forças produtivas, pois o carácter social do processo de produção está alicerçado na propriedade social dos meios de produção.

É isto que faz com que a produção socialista na U.R.S.S. ignore as crises periódicas de superprodução e todos os outros absurdos que daí resultam.

É isto que faz com que aqui as forças produtivas se desenvolvam com um ritmo acelerado pois as relações de produção que lhes são convenientes dão livre curso a este desenvolvimento.

Tal é o quadro do desenvolvimento das relações de produção entre os homens, ao longo da história da humanidade.

Tal é a dependência do desenvolvimento das relações de produção em relação ao desenvolvimento das forças produtivas da sociedade, e, antes de mais, em relação ao desenvolvimento dos instrumentos de produção, dependência que faz com que as transformações e o desenvolvimento das forças produtivas dum lugar, mais cedo ou mais tarde, a uma transformação e a um desenvolvimento correspondentes das relações de produção.

O emprego e a criação dos meios de trabalho (Por meios de trabalho, Marx entende principalmente os instrumentos de produção. J.Stalin.) apesar de se encontrarem em embrião em algumas espécies animais, caracterizam eminentemente o trabalho humano. Também Franklin dá esta definição de homem: o homem é um animal que fabrica utensílios ("a toolmaking animal"). Os restos dos antigos meios de trabalho têm, para o estudo das formas económicas das sociedades desaparecidas, a mesma importância que a estrutura dos ossos fósseis para o conhecimento da organização das raças extintas. Aquilo que distingue uma época económica de outra, é menos aquilo que se fabrica, do que como é fabricado... Os meios de trabalho são a escala do desenvolvimento do trabalhador, e os expositores das relações sociais, nas quais ele trabalha (K. Marx: O Capital).

E mais adiante:

As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas. Ao adquirir novas forças produtivas, os homens mudam o seu modo de produção e ao mudar o modo de. produção, a maneira de ganhar a vida, mudam todas as suas relações sociais. A azenha vos dará a sociedade com o suserano (o senhor feudal J. Stalin); o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial (K. Marx: Miséria da Filosofia, resposta à Filosofia da Miséria, de M. Proudhon).

Há um movimento contínuo de crescimento nas forças produtivas, de destruição nas relações sociais, de formação nas ideias; não há nada mais imutável que a abstracção do movimento (Ibidem).

Definindo o materialismo histórico, formulado no Manifesto do Partido Comunista, diz Engels:

...A produção económica e a estrutura social, que dai resulta necessariamente, formam, em cada época histórica, a base da história política e intelectual dessa época;... por ISSO, (depois da dissolução da primitiva propriedade comum do solo), toda a história foi uma história de luta de classes, de lutas entre classes exploradas e classes exploradoras, entre classes dominadas e classes dominantes, nas diferentes etapas do seu desenvolvimento social... esta luta atingiu actualmente uma etapa em que a classe explorada e oprimida (o proletariado) já não pode se libertar da classe que a explora e oprime (a burguesia), sem libertar simultaneamente, e para sempre, toda a sociedade da exploração, da opressão e das lutas de classes... (F. Engels: prefácio à edição alemã de 1883 do Manifesto do Partido Comunista).

d) A terceira particularidade de produção é a de que as novas forças produtivas e as relações de produção que lhes correspondem não aparecem fora do antigo regime e depois do seu desaparecimento; aparecem no próprio seio do velho regime; não são o efeito de uma dão consciente, premeditada pelos homens. Surgem espontâneas e independentes da vontade dos homens, por duas razões:

Em primeiro lugar, porque os homens não são livres na escolha do modo de produção; cada nova geração, na sua entrada na vida, encontra forças produtivas e relações de produção já estabelecidas, criadas pelo trabalho das gerações precedentes; também cada nova geração é obrigada a aceitar, de início, tudo o que encontra estabelecido no domínio da produção e a adaptar-se para poder produzir bens materiais.

Em segundo lugar, porque ao aperfeiçoar este ou aquele instrumento de produção, este ou aquele elemento das forças produtivas, os homens não têm consciência dos resultados sociais, aos quais devem conduzir estes aperfeiçoamentos; não o compreendem e não pensam nisso, não pensam senão nos seus interesses quotidianos, em tornar o seu trabalho mais fácil e em obter uma vantagem imediata e tangível.

Quando alguns membros da comuna primitiva começaram, pouco a pouco, e às apalpadelas, a passar dos utensílios de pedra aos utensílios de ferro, ignoravam evidentemente os resultados sociais a que levaria esta inovação; não pensavam nisso; não tinham consciência, não compreendiam que a adopção dos utensílios de metal significava uma revolução na produção, que essa revolução levaria finalmen-te ao regime de escravatura. O que eles queriam, era, simplesmente, tornar o trabalho mais fácil e obter uma vantagem imediata e palpável; a sua actividade consciente limitava-se ao quadro estreito desta vantagem pessoal, quotidiana.

Quando, no regime feudal, a jovem burguesia da Europa começou a construir, ao lado das pequenas oficinas de artesãos, grandes fábricas, fazendo assim progredir as forças produtivas / da sociedade, ignorava evidentemente as consequências sociais que resultariam dessa inovação; não pensava nisso; não tinha consciência, não compreendia que esta “pequena” inovação levaria a um reagrupamento das forças sociais, que deveria terminar com uma revolução contra o poder real do qual apreciava tanto a benevolência, assim como contra a nobreza na qual muitos dos melhores representantes desta burguesia sonhavam entrar; o que queria era simplesmente diminuir o custo da produção das mercadorias, lançar. uma maior quantidade de mercadorias nos mercados da Ásia e nos da América, que acabava de ser desco¬berta, e conseguir maiores lucros; a sua actividade consciente limitava-se ao quadro estreito destes interesses práticos, quotidianos.

Quando os capitalistas russos, de acordo com os capitalistas estrangeiros, implantaram altivamente na Rússia a grande indústria mecanizada moderna, sem tocar no czarismo e lançando os camponeses como repasto aos grandes latifundiários, ignoravam evidentemente as consequências sociais que resultariam desse considerável crescimento das forças produtivas, não pensavam nisso; não tinham cons-ciência, não compreendiam que este considerável salto das forças produtivas da sociedade daria origem a um reagrupamento das forças sociais, que permitiria ao proletariado se associar ao campesinato e fazer triunfar a revolução capitalista. O que eles queriam, era simplesmente expandir até ao extremo a produção industrial, tornarem-se senhores de um imenso mercado interior, monopolizar a produção e extrair, da economia nacional, o maior lucro possível; a sua actividade consciente não ia além dos seus interesses quotidianos, puramente práticos.

Marx disse a este respeito:

Na produção social da sua existência (isto é, na produção dos bens materiais necessários à vida dos homens. J. Stalin), os homens entram em determinadas relações necessárias, independentes (Sublinhado pelo autor.) da sua vontade; estas relações de produção correspondem a um dado grau de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. (Prefácio à Contribuição para a Crítica da Econo-mia Política).

Isto não significa, contudo, que a mudança das relações de produção e a passagem das antigas relações de produção às novas, se efectuem uniformemente, sem sacudidelas nem conflitos. Pelo contrário, esta passagem opera-se habitualmente com o derrube revolucionário das antigas relações de produção e com o estabelecimento de novas relações. Até um certo momento, o desenvolvimento das forças produtivas e as transformações, no domínio das relações de produção, efectuam-se espontaneamente, sem depender da vontade dos homens. Mas só assim até um certo momento, até ao momento em que as forças produtivas, que já surgiram e se desenvolvem, estiverem suficientemente maduras. Quando as novas forças produ-tivas atingem a maturidade, as relações de produção existentes e as classes dominantes que as personificam, transformam-se numa barreira intransponível, que só pode ser afastada do caminho pela actividade consciente de novas classes, pela acção violenta destas classes, pela revolução. É então que aparece de uma maneira impressionante o papel imenso das novas ideias sociais, das novas instituições políticas, do novo poder político, chamados a suprimir pela força as antigas relações de produção. O conflito entre as novas forças produtivas e as antigas relações de produção, as novas necessidades económicas da sociedade dão origem a novas ideias sociais; estas novas ideias organizam e mobilizam as massas, estas unem-se a um novo exército político, criam um novo poder revolucionário e servem-se dele para suprimir pela força a antiga ordem de coisas no domínio das relações de pro-dução, para instituir um novo regime. O processo espontâneo de desenvolvimento dá o lugar à actividade consciente dos homens; o desenvolvimento pacífico, a uma agitação violenta; a evolução, à revolução.

O proletariado, diz Marx, na sua luta contra a burguesia. Organiza-se forçosamente em classe... passa. por uma revolução. a classe dominante e. como classe dominan-te. destrói violentamente o antigo regime de produção (K. Marx e F. Engels: O Manifesto do Partido Comunista).

E mais adiante: O proletariado se servirá da sua suprema política para arrancar, pouco a pouco, todo o capital à burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado em classe dominante, e para aumentar tão depressa quanto possível a quantidade das forças produtivas. (Ibidem). A força é a parteira de toda a velha sociedade em actividade. (O Capital. livro primeiro).

No histórico prefácio da sua célebre obra Contribuição para a Crítica da Economia Política (1859), Marx dá uma definição genial da própria essência do materialismo histórico:

Na produção social da sua existência, os homens entram em relações determina-das, necessárias, independentes da sua vontade; estas relações de produção cor-respondem a um dado grau de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto destas relações de produção constituía estrutura económica da sociedade, a base real sobre a qual se ergue uma super estrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas formas de consciência social. O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e intelectual, em geral. Não é a consciência dos homens que determina a sua existência; é, pelo contrário; a existência social que determina a sua consciência. Em determinado grau do seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção existentes, ou, o que não passa da sua expressão jurídica, com as relações de propriedade no seio das quais tatuavam até então. De formas de desenvolvimento das forças produtivas que eram, estas relações passam a ser um entrave para estas forças.

Então inicia-se uma época de revoluções sociais. A mudança da base económica transforma, mais ou menos lenta ou rapidamente, toda a formidável super estrutura. Quando se estuda essas transformações, é preciso distinguir sempre a mudança material - constatada com uma precisão própria das ciências naturais - das condições económicas da produção e as formas jurídicas políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas, nas quais os homens concebem este conflito e o combatem. Assim como não se pode julgar um indivíduo pela ideia que ele tem de si próprio, também não se pode julgar uma tal época de transformações pela sua consciência; mas é preciso explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito que opõe as forças produtivas da sociedade e as relações de produção. Uma formação social nunca morre antes de terem se desenvolvido todas as forças produtivas, às quais pode dar livre curso; nunca aparecem novas relações de produção, superiores às antigas, antes de terem morrido as suas condições materiais no seio da velha sociedade. É por esta razão que nunca se põem, à Humanidade, problemas que ela não possa resolver; pois, por pouco que considerem as coisas, se reconhecerá sempre que o problema em si não surge senão quando existem ou pelo menos estão em formação, as condições naturais para a sua solução.

Eis o que ensina o materialismo marxista aplicado à vida social, à história da sociedade.

Tais são as características fundamentais do materialismo dialéctico e histórico.



Versão retirada do blog de Blasco Miranda de Ourofino,

http://blascoourofino.blogspot.com/
cotejado pela tradução francesa da Editions de l’Evidence,
http://pt.scribd.com/doc/63533681/Mat-Dial
revista, passada para português de Portugal e publicada no blog .