sábado, setembro 23, 2006

SOBRE RELACIONAMENTOS ENTRE HOMEM E MULHER...

Mais uma tradução dum texto curioso dum filósofo curioso




Texto do filósofo indiano Osho


(…) Estive a ler um livro que falava sobre mulheres fartas de homens, por culpa destes… Será assim? Sim, é verdade…Mas apenas meia-verdade. Os homens também se fartam, e por culpa das mulheres. Na verdade, estamos todos no mesmo barco – homens ou mulheres, todos se fartam – porque o nosso estilo de vida é uma aberração completa. Nem os homens são responsáveis pelo tédio das mulheres, nem as mulheres são responsáveis pela frustração que os homens sentem.
Tem que se aprofundar a psicologia da frustração: A primeira coisa a lembrar é que a pessoa só fica frustrada, farta, enjoada, se tiver grandes expectativas. Se não as tiver…
Eu não estou farto de nada, nem vejo nenhuma possibilidade disso me acontecer. Até morrer, vou manter os mesmos olhos maravilhados com que nasci… Vivo também no mesmo mundo que vós, mas não estou entediado porque nunca esperei nada, portanto não dou lugar à frustração.
A mulher farta-se porque tem esperado muito do homem, e o pobre do homem não pode preencher tanta expectativa. As mulheres são mais imaginativas; transformam em herói um Zé qualquer. Aos seus olhos românticos qualquer idiota parece um Gautama, o Buddha. E lentamente, lentamente, à medida que se vão aproximando dos seus grandes heróis, não encontram gigantes, encontram apenas pobres seres humanos normais. E instala-se a frustração. Ampliaram-nos e exageraram as suas qualidades – Mas não se pode viver sempre a ver as coisas por uma lente de aumentar. Mais cedo ou mais tarde, terão que enfrentar a realidade.
A realidade é apenas um homem chateado, completamente desinteressante. E o homem – o homem não é tão imaginativo, mas o seu instinto biológico mantém-no quase dopado, e quando drogado pelo seu instinto biológico, qualquer mulher feia lhe parece uma Cleópatra. Os olhos do homem ficam velados por uma loucura biológica.
Quem diz que o amor é cego tem razão. O homem começa por ver com os olhos tapados; ele receia destapá-los porque a realidade pode ser decepcionante. Mas durante quanto tempo se pode viver tapando os olhos? Mais cedo ou mais tarde terá que olhar para a mulher por quem estava obcecado.
A fixação biológica desaparece depressa; é meramente química, hormonal. Uma vez que se está sexualmente saciado com a mulher, toda a cegueira, toda a loucura desaparece. Volta-se à racionalidade, e vê-se apenas uma mulher como as outras. Naturalmente, para a evitar, os homens refugiam-se na leitura do jornal, vão para o sofá ver televisão. Fizeram uma sondagem na América: O americano comum passa uma média de 7 horas e meia frente à televisão! E, naturalmente, a sua mulher fica farta.
Sei de pessoas que fazem amor enquanto, ao mesmo tempo, vão vendo televisão. Nem mesmo os grandes sexólogos, como Vatsyayana, Pundit Koka, Sigmund Freud, Havelock Ellis, puderam sonhar alguma vez que um dia as pessoas haviam de fazer amor enquanto viam TV. Estão tão fartas de tudo que a televisão é um refúgio.
Mas a psicologia é simples: Começa-se por ter certas expectativas dos outros e a acreditar nessas expectativas. E em breve essas expectativas se espatifam contra a realidade. Essa é a razão porque os homens se fartam e porque as mulheres se fartam – Todos se fartam. O mundo está cheio de pessoas entediadas…!
O tédio é talvez o fenómeno mais significativo que apareceu no século vinte. Nunca antes o homem se aborreceu tanto. Antigamente, quando o homem era caçador e não havia casamento nem possibilidade de monotonia, não se aborrecia, não tinha tempo para isso. As mulheres não se aborreciam: Podiam sempre escolher outro homem. O casamento estabilizou tudo em nome da protecção e da segurança, mas acabou com a exploração das possibilidades. Um dos poetas Urdu tem uma bela canção que diz: “Se tu” – referindo-se a Deus – “Eras a favor do casamento, porque me deste olhos? Porque me deste inteligência?” Os atrasados mentais não se aborrecem e, surpreendentemente, os cegos também não.
Quanto mais inteligente se é, mais depressa se fica farto, esse é o critério. Os mais inteligentes, sensíveis e criativos são os que mais se aborrecem, porque uma experiência basta. Repeti-la é só para idiotas…
À medida que o mundo se vai estabilizando sob o ponto de vista financeiro e social – casamento, filhos, educação, reforma, pensões, seguros… - Nos países mais desenvolvidos as pessoas até são pagas para não trabalhar – perdeu-se toda a alegria da exploração das possibilidades. Tudo se tornou de tal maneira pré-estabelecido e controlado que parece que a única possibilidade de experimentar algo novo, particularmente no mundo ocidental, é o suicídio. Apenas isso ficou por descobrir.
Experimentaram o sexo e acharam que não passava de uma patetice. Experimentaram drogas e viram que eram apenas ilusão. Agora parece que não há mais descoberta, não há mais desafio, e cada vez mais pessoas cometem suicídio. Note-se que a taxa de suicídios não cresce nos países pobres. Os pobres parece que se aborrecem menos e se saturam menos porque ainda se têm que preocupar em arranjar comida, roupa e abrigo; não têm tempo para se aborrecerem. Não se podem dar a esse luxo.
Quanto mais rica é a sociedade… Onde tudo está disponível, por quanto tempo se pode viver numa vida estável, monótona, segura, protegida, garantida? Gente de grande inteligência começa a cometer suicídio.
O Oriente também conheceu os seus tempos de abundância, mas felizmente aí encontrou-se um melhor substituto para o suicídio, que são os sannyas. Quando as pessoas se fartavam, como aconteceu com o Gautama Buddha – ele tinha todo o luxo possível - por quanto tempo se pode repetir essa luxúria diariamente? Aos vinte e nove anos acabou para o mundo. Tinha experimentado tudo o que o mundo lhe podia dar. Uma noite escura, deixou o seu reino, a sua segurança, o seu conforto. Abandonou tudo e tornou-se um mendigo em busca do que fosse eternamente novo, que nunca se desgastasse, que nunca se tornasse monótono. A busca do eternamente novo é a busca dos sannyas.
Há algo dentro de cada um que é eternamente novo, que nunca se desgasta, que nunca aborrece. E quando digo isto, o que digo vem mesmo dessa fonte. As minhas palavras vêm daí mesmo. Se as absorveres, se as sentires, vislumbrarás um lugar onde tudo se renova a cada momento, onde o pó nunca assenta. Esse mundo existe dentro de nós.
Mas estás interessado numa mulher e ela, interessada em ti. Ela não pode ver essa tua fonte eterna de alegria nem tu podes ver a dela, porque estás focado na mulher. Estamos todos focados nos outros e o que nos poderia dar uma alegria permanente está dentro de nós – mas nunca o procuramos no nosso interior.
As pessoas dispõem-se a subir ao Everest, à Lua, a Marte, à descoberta, porque não sabem que, chegando lá mesmo, sentirão a estupidez disso tudo. O que vais fazer lá? Por quanto tempo permaneceu Edmund Hillary no cume do Everest? Não mais de dois minutos. Arriscou a vida – e centenas de outras pereceram depois dele, para atingir o pico. Imagino que ele, especado no pico mais alto do Himalaia, se deve ter sentido muito embaraçado. Ainda bem que ninguém lá estava para o ver, ao fim de dois minutos lá, estava farto: Vou-me embora…!
O que vamos fazer à Lua? É uma situação curiosa… Quando o primeiro astronauta Russo, Yuri Gagarine – que foi o que chegou mais próximo da Lua na história da humanidade, até à altura – regressou a Terra, os jornalistas perguntaram-lhe “Qual foi o seu primeiro pensamento quando lá chegou?” Ele respondeu, “Primeiro…olhei para a Terra. Parecia tão bela lá de cima. É oito vezes maior que a Lua e, lá, brilha exactamente como a Lua, mas oito vezes mais. E a Lua parece tão sem importância como a Terra, quando estamos nela”
Apenas à distância se pode apanhar os raios reflectidos do Sol. A Lua não tem luz própria; quando lá se chega, é o lugar mais deserto e feio possível, porque não tem água, verdura, flores. Nada acontece lá – é apenas um deserto, completamente morto.
“Mas na Lua” disse Yuri Gagarine, “o meu primeiro pensamento foi ‘Minha querida Terra…’” É estranho, mas quando estamos na Terra, não lhe ligamos nenhuma. Yuri Gagarine viveu toda a vida na Terra e nunca pensou “Minha querida Terra…” E a segunda coisa que disse foi “Quando murmurei para mim próprio ‘Minha querida Terra’, lembrei-me que sou um comunista e que pertenço à União Soviética. Mas, vista da Lua, a Terra já não está dividida em União Soviética, Alemanha, Japão, América, Índia”. Todas aquelas linhas estúpidas que criámos nos mapas, não existem na Terra. E ele, pela primeira vez, na Lua, sentiu a Humanidade e a Terra, únicas – e tão belas…!
Yuri Gagarine esteve na Índia. Encontrei-me com ele em Nova Delhi e perguntei-lhe, “Desde que voltou à Terra, alguma vez tornou a pensar “Quanto é bela a minha Terra”? Ela olhou-me, chocado. Disse, “Nunca ninguém me fez essa pergunta e eu nunca voltei a ter tal pensamento”.
O Homem procura sempre aquilo que está longe; parece não dar conta nenhuma do que é óbvio, do que está mesmo aí.
E nós somos o que está mais perto de nós próprios, por isso não nos alcançamos. E não há maneira de nos separarmos de nós próprios. Para onde quer que vamos, lá estaremos – não nos podemos separar de nós próprios. Daí não sermos capazes de dizer “meu querido eu…”
Teremos que aprender a arte de entrarmos em nós próprios. Temos que ser mais subjectivos que objectivos. A subjectividade é a essência do misticismo. Teremos que começar a olhar para dentro de nós.
A isso chamamos meditação, é apenas olhar para dentro de nós, até ver a fonte da nossa própria vida. E uma vez que a tocamos, vai-se a monotonia, vem a alegria de viver.
De contrário, homem ou mulher, o tédio será o destino de cada um.

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E para desanuviar, aqui vai uma piada sobre o tédio conjugal:

(N.T.: Traduzido para português, o vernáculo será mais grosseiro, mas é assim mesmo que Pedro fala)

A Ana Fonseca estava a ficar muito triste e só, porque o marido, Pedro, não fazia outra coisa, dia e noite, senão ver televisão. Então ela decidiu comprar um cãozinho, para ter companhia.
“Se quiser um cão especial” disse o homem da loja de animais, “temos nesta jaula um cão Ninja, que é capaz de destruir seja o que for” e a Ana exclama, “ Que horror!” “Não”, responde o homem, ”ele é extremamente obediente. Só destruirá aquilo que você lhe mandar – a senhora diz ‘Ninja, a cadeira’ e ele destrói a cadeira, ‘Ninja, o rato’ e ele destrói o rato”. Ana pergunta-lhe então, “ele seria capaz de destruir uma Televisão?” Responde o homem,”Claro, ele estraçalhará a televisão em menos de um fósforo!” então a Ana Fonseca compra o cãozinho e leva-o para casa. Lá (claro, o Pedro estava sentado frente à TV), ela abre a caixa onde o cão vinha. O Pedro olhou e disse, “Querida, que cãozinho compraste?” “Comprei um cão Ninja” disse ela, preparando-se para lhe dar a ordem de destruir a TV. E o Pedro voltou-se de novo para a TV, comentando “Ninja, o caralho!”...

…Fim da piada…!

quinta-feira, setembro 07, 2006

Traduções - Texto de Dalai Lama

Parece que encontrei um uso verdadeiramente útil para este meu blog...

Vou passar a postar aqui textos interessantes, de diversos autores, traduzidos por mim.

Quem quiser, veja, sobre o desfasamento entre a tecnologia e as mentalidades:



Sobre a Guia Moral – Dalai Lama

Excerto de “O Universo Num só Átomo: A Convergência da Ciência e da Espiritualidade”



“As questões mais prementes que se levantam têm mais a ver com Ética que com ciência per se, têm a ver com a aplicação correcta do conhecimento e do poder relativamente às novas possibilidades que se abrem com a clonagem, com a decifração do código genético e com outras descobertas. Têm a ver com as possibilidades da manipulação genética, não só de seres humanos e animais, mas também de plantas e do ambiente de que todos somos parte. No fundo, o problema é o da relação entre o nosso conhecimento e poder, por um lado, com a nossa responsabilidade, por outro.

Qualquer avanço da ciência que abra perspectivas comerciais atrai um tremendo interesse e investimento quer do sector público, quer da iniciativa privada. A quantidade de conhecimento científico e o alcance das possibilidades técnicas é tão grande que apenas a nossa falta de imaginação limita aquilo que se poderá fazer. É esta acumulação de conhecimentos e potencial nunca antes alcançados que nos coloca na presente posição crítica. Quanto maior o nível de conhecimentos e de poder, maior tem que ser o nosso sentido de responsabilidade moral. A questão já não é a de se devemos ou não adquirir e explorar esse potencial tecnológico: É, antes, a questão de como usar estes novos conhecimento e poder da maneira mais útil e responsavelmente ética.

Não é correcto adoptar a posição de que a nossa responsabilidade como sociedade se resume a impulsionar o conhecimento científico e aumentar a capacidade tecnológica. Nem argumentar que o que se faz com estes conhecimentos e poder se deve deixar à decisão de indivíduos. Este argumento de que a sociedade em geral não deve interferir no curso da investigação, de facto põe de lado qualquer papel minimamente significativo das considerações humanitárias e éticas na regulação do desenvolvimento científico. É essencial, é mesmo uma responsabilidade, sermos muito mais atentos e críticos quanto ao que desenvolvemos e porquê. O princípio básico é o de que quanto mais cedo se intervir no processo inicial, mais efectivamente se previnem as consequências indesejáveis.

Para responder aos desafios do presente e do futuro, precisamos dum grau de empenhamento colectivo muito superior ao que tem existido. Uma parte da solução consistiria em garantir que um segmento significativo do público em geral tenha uma capacidade prática de pensamento científico e uma compreensão das principais descobertas científicas, em particular das que têm implicações directas ao nível ético e social. A educação tem que conferir não só uma experiência empírica dos factos científicos, mas também uma análise das relações entre a ciência e a sociedade em geral, incluindo as questões éticas que as novas capacidades tecnológicas levantam. Este imperativo de educação deve estender-se aos cientistas e também ao cidadão comum, de modo a que os cientistas atinjam uma mais vasta compreensão das implicações sociais, culturais e éticas das suas actividades.

Atendendo à importância do que está em causa, as decisões sobre os caminhos da investigação científica, sobre o que fazer do nosso conhecimento e sobre que possibilidades tecnológicas desenvolver, não poderão deixar-se nas mãos dos cientistas, dos interesses lucrativos e dos governantes. Como sociedade, temos claramente que definir algumas regras. Mas essas deliberações não podem vir apenas de umas simples comissões, por muito apetrechadas e peritas que sejam. Precisamos dum nível muito mais elevado de envolvimento do público, especialmente na forma de debate e discussão, seja através dos meios de comunicação social, seja através de referendos, seja através de grupos de pressão empenhados.

Os desafios que hoje se colocam são de tal envergadura – e os perigos do uso errado da tecnologia é tão global, acarretando um potencial tão catastrófico para toda a humanidade – que me faz sentir que precisamos uma guia moral que todos possamos usar sem nos deixarmos embaraçar por divergências de doutrina. Decisivamente, precisamos duma visão holística e integrada ao nível da sociedade que reconheça a natureza fundamentalmente interligada de todos os seres humanos e o seu ambiente. Tal guia moral deve levar à preservação da sensibilidade do Homem e dependerá de termos sempre em mente os nossos valores humanísticos fundamentais. Temos que estar dispostos a revoltarmo-nos sempre que a ciência – ou, neste caso, qualquer acção humana – ultrapasse a linha da decência, e temos que nos bater para preservar a nossa sensibilidade que, de outro modo, facilmente se corrói.

Como encontrar este guia moral? Temos que começar colocando a nossa fé no fundo bom da natureza humana, e ancorar esta fé nalguns princípios universais e fundamentais de ética. Estes, incluem o reconhecimento do valor precioso da vida, uma compreensão da necessidade de equilíbrio na natureza e da utilização desta necessidade como baliza para a direcção do nosso pensamento e acção e – acima de tudo – a necessidade de garantir que é a compaixão o motor de todos os nossos empreendimentos e que se consegue combinar com uma percepção clara de um ponto de vista mais amplo, inclusive acerca das consequências a longo prazo.

Muitos concordarão comigo que estes valores éticos transcendem a dicotomia de crentes religiosos e não crentes, e que são cruciais para o bem-estar de toda a humanidade. Devido à realidade profundamente interligada do mundo de hoje, temos que nos envolver nos desafios que enfrentamos como uma só família humana e, não, como membros de específicas nacionalidades, etnicidades ou religiões. Por outras palavras, um princípio necessário é o espírito de unidade entre a espécie humana. Poderão alguns achar isto irrealista. Mas que outra opção temos nós?

Resumindo, a nossa reacção ética tem que envolver os seguintes factores-chave:
Primeiro, temos que analisar aquilo que nos motiva e assegurarmo-nos de que se baseia na compaixão;
Segundo, temos que lidar com os problemas que enfrentamos numa perspectiva o mais aberta possível, o que implica não só situar o assunto no quadro da mais vasta acção humana mas também ter em devida conta as consequências a curto e a longo prazo;
Em terceiro lugar, quando aplicamos a nossa inteligência a um problema, temos que estar vigilantes para que nos mantenhamos empenhados, despertos e descomprometidos, pois há o perigo desiludirmos, se o não fizermos;
Quarto, perante qualquer desafio ético concreto, temos que reagir num espírito de humildade, reconhecendo não só os limites do nosso conhecimento (quer colectiva quer pessoalmente) mas também a nossa vulnerabilidade ao erro, no contexto duma realidade em mudança tão acelerada.
Finalmente, temos todos – cientistas e sociedade em geral – de lutar para garantir que, seja qual for o rumo que tomemos, temos sempre em mente o objectivo principal do bem-estar da humanidade como um todo e do planeta em que vivemos".

Sua Santidade O Dalai Lama