quinta-feira, setembro 07, 2006

Traduções - Texto de Dalai Lama

Parece que encontrei um uso verdadeiramente útil para este meu blog...

Vou passar a postar aqui textos interessantes, de diversos autores, traduzidos por mim.

Quem quiser, veja, sobre o desfasamento entre a tecnologia e as mentalidades:



Sobre a Guia Moral – Dalai Lama

Excerto de “O Universo Num só Átomo: A Convergência da Ciência e da Espiritualidade”



“As questões mais prementes que se levantam têm mais a ver com Ética que com ciência per se, têm a ver com a aplicação correcta do conhecimento e do poder relativamente às novas possibilidades que se abrem com a clonagem, com a decifração do código genético e com outras descobertas. Têm a ver com as possibilidades da manipulação genética, não só de seres humanos e animais, mas também de plantas e do ambiente de que todos somos parte. No fundo, o problema é o da relação entre o nosso conhecimento e poder, por um lado, com a nossa responsabilidade, por outro.

Qualquer avanço da ciência que abra perspectivas comerciais atrai um tremendo interesse e investimento quer do sector público, quer da iniciativa privada. A quantidade de conhecimento científico e o alcance das possibilidades técnicas é tão grande que apenas a nossa falta de imaginação limita aquilo que se poderá fazer. É esta acumulação de conhecimentos e potencial nunca antes alcançados que nos coloca na presente posição crítica. Quanto maior o nível de conhecimentos e de poder, maior tem que ser o nosso sentido de responsabilidade moral. A questão já não é a de se devemos ou não adquirir e explorar esse potencial tecnológico: É, antes, a questão de como usar estes novos conhecimento e poder da maneira mais útil e responsavelmente ética.

Não é correcto adoptar a posição de que a nossa responsabilidade como sociedade se resume a impulsionar o conhecimento científico e aumentar a capacidade tecnológica. Nem argumentar que o que se faz com estes conhecimentos e poder se deve deixar à decisão de indivíduos. Este argumento de que a sociedade em geral não deve interferir no curso da investigação, de facto põe de lado qualquer papel minimamente significativo das considerações humanitárias e éticas na regulação do desenvolvimento científico. É essencial, é mesmo uma responsabilidade, sermos muito mais atentos e críticos quanto ao que desenvolvemos e porquê. O princípio básico é o de que quanto mais cedo se intervir no processo inicial, mais efectivamente se previnem as consequências indesejáveis.

Para responder aos desafios do presente e do futuro, precisamos dum grau de empenhamento colectivo muito superior ao que tem existido. Uma parte da solução consistiria em garantir que um segmento significativo do público em geral tenha uma capacidade prática de pensamento científico e uma compreensão das principais descobertas científicas, em particular das que têm implicações directas ao nível ético e social. A educação tem que conferir não só uma experiência empírica dos factos científicos, mas também uma análise das relações entre a ciência e a sociedade em geral, incluindo as questões éticas que as novas capacidades tecnológicas levantam. Este imperativo de educação deve estender-se aos cientistas e também ao cidadão comum, de modo a que os cientistas atinjam uma mais vasta compreensão das implicações sociais, culturais e éticas das suas actividades.

Atendendo à importância do que está em causa, as decisões sobre os caminhos da investigação científica, sobre o que fazer do nosso conhecimento e sobre que possibilidades tecnológicas desenvolver, não poderão deixar-se nas mãos dos cientistas, dos interesses lucrativos e dos governantes. Como sociedade, temos claramente que definir algumas regras. Mas essas deliberações não podem vir apenas de umas simples comissões, por muito apetrechadas e peritas que sejam. Precisamos dum nível muito mais elevado de envolvimento do público, especialmente na forma de debate e discussão, seja através dos meios de comunicação social, seja através de referendos, seja através de grupos de pressão empenhados.

Os desafios que hoje se colocam são de tal envergadura – e os perigos do uso errado da tecnologia é tão global, acarretando um potencial tão catastrófico para toda a humanidade – que me faz sentir que precisamos uma guia moral que todos possamos usar sem nos deixarmos embaraçar por divergências de doutrina. Decisivamente, precisamos duma visão holística e integrada ao nível da sociedade que reconheça a natureza fundamentalmente interligada de todos os seres humanos e o seu ambiente. Tal guia moral deve levar à preservação da sensibilidade do Homem e dependerá de termos sempre em mente os nossos valores humanísticos fundamentais. Temos que estar dispostos a revoltarmo-nos sempre que a ciência – ou, neste caso, qualquer acção humana – ultrapasse a linha da decência, e temos que nos bater para preservar a nossa sensibilidade que, de outro modo, facilmente se corrói.

Como encontrar este guia moral? Temos que começar colocando a nossa fé no fundo bom da natureza humana, e ancorar esta fé nalguns princípios universais e fundamentais de ética. Estes, incluem o reconhecimento do valor precioso da vida, uma compreensão da necessidade de equilíbrio na natureza e da utilização desta necessidade como baliza para a direcção do nosso pensamento e acção e – acima de tudo – a necessidade de garantir que é a compaixão o motor de todos os nossos empreendimentos e que se consegue combinar com uma percepção clara de um ponto de vista mais amplo, inclusive acerca das consequências a longo prazo.

Muitos concordarão comigo que estes valores éticos transcendem a dicotomia de crentes religiosos e não crentes, e que são cruciais para o bem-estar de toda a humanidade. Devido à realidade profundamente interligada do mundo de hoje, temos que nos envolver nos desafios que enfrentamos como uma só família humana e, não, como membros de específicas nacionalidades, etnicidades ou religiões. Por outras palavras, um princípio necessário é o espírito de unidade entre a espécie humana. Poderão alguns achar isto irrealista. Mas que outra opção temos nós?

Resumindo, a nossa reacção ética tem que envolver os seguintes factores-chave:
Primeiro, temos que analisar aquilo que nos motiva e assegurarmo-nos de que se baseia na compaixão;
Segundo, temos que lidar com os problemas que enfrentamos numa perspectiva o mais aberta possível, o que implica não só situar o assunto no quadro da mais vasta acção humana mas também ter em devida conta as consequências a curto e a longo prazo;
Em terceiro lugar, quando aplicamos a nossa inteligência a um problema, temos que estar vigilantes para que nos mantenhamos empenhados, despertos e descomprometidos, pois há o perigo desiludirmos, se o não fizermos;
Quarto, perante qualquer desafio ético concreto, temos que reagir num espírito de humildade, reconhecendo não só os limites do nosso conhecimento (quer colectiva quer pessoalmente) mas também a nossa vulnerabilidade ao erro, no contexto duma realidade em mudança tão acelerada.
Finalmente, temos todos – cientistas e sociedade em geral – de lutar para garantir que, seja qual for o rumo que tomemos, temos sempre em mente o objectivo principal do bem-estar da humanidade como um todo e do planeta em que vivemos".

Sua Santidade O Dalai Lama

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