domingo, abril 01, 2007

REFLEXÃO I

Do blog da Ana Pereira, tirei isto (vejam no blog dela, o link está aqui à esquerda):

(…) Queria acreditar num Deus para lhe pedir protecção, e para dar alento, esperança e salvamento a quem já se vê a braços com este drama. Mas não tenho em que acreditar (…).

E comentei:

"Comovente, o teu relato, pelos sentimentos que revela...Mas pensa bem, Ana, se "Deus" é aquilo que tudo determina e influencia, e se acreditas que tudo influencia tudo e está relacionado com tudo, então "Deus" é...TUDO! Procura então o Deus que tu também és!"

O Zen (blog ao lado), leu e mandou-me um mail:

(…) Diz-me, qual é a tua visão do divino? Sentes Deus? De que forma? Professas alguma fé? (…)


Como resposta, pedi-lhe para fazer alguma preparação prévia:

“Como preparativo, sugiro-te o seguinte:

- Veres o filme 2001 – Odisseia no Espaço (se já o viste, recorda-lo);
- Ires ao "Trance Dance" na tarde de Domingo (para entrares em transe...LOL);
- Recordares o texto no meu blog sobre "Corrida Mística".”


E agora, respondo-lhe directamente aqui no meu blog, mas esperando trazer ao tema, à conversa e à polémica, mais passeantes que aqui, na minha praia, venham a desembarcar:

Antes de passar a responder àquelas perguntas iniciais que colocaste, e sempre pressupondo que vais praticando aqueles “exercícios preparatórios” que te recomendei acima, passo a responder à outra questão que colocaste na tua última mensagem:

“ (…) Dei por mim a navegar “ noutras latitudes” da consciência e isso trouxe-me alguma paz (…) Como interpretar tudo isto sem tropeçar numa condição alienada de interpretação da realidade? (…)”

Zen, percebo perfeitamente o que sentes. É que eu nem baptizado sou, fui ateu fundamentalista até aos meus 45 anos, e depois comecei a fazer essa mesma interrogação…
Curioso, alguns católicos praticantes começaram a fazer a pergunta inversa e deixaram a Igreja!

Comecemos por aí: A Igreja tem sido usada pelos homens para manipular a fé dos crentes a favor dos poderosos – Dan Brown, um escritor que admiro pela sua imaginação e, muito mais, pela sua coragem, denuncia esse mecanismo diabólico no seu Código de Da Vinci, livro muito falado, mas pouco compreendido na sua mensagem de regeneração e emancipação religiosa, aspectos sistematicamente ignorados pelos Media, dos jornais ao cinema, passando pela crítica literária. Como convém ao sistema…!

Pois a Igreja, ao longo de séculos apoderando-se de palavras e conceitos, afastou o homem comum de qualquer possibilidade de elevação religiosa. A religião tem uma vertente Transaccional e outra, Transformacional. A primeira, acompanha e suaviza a vida, a segunda, eleva o homem para além da vida, fazendo a re-ligação com as esferas superiores, re-ligação donde vem o nome religião. A primeira, é o baptismo, primeira comunhão, missa aos Domingos, leitura estática da Bíblia (de preferência em Latim, como quer o novo Papa), prece, confissão, penitência, casamento, extrema-unção. A segunda, é o exemplo dos grandes Místicos, de Cristo, de S. Tomás de Aquino, da Madre Teresa de Calcutá…

Ou seja: O que afasta as pessoas de pensar em transcendências dessas, é a Igreja que conhecemos, pois monopolizou os conceitos, até as palavras, e como te posso eu agora falar em Deus sem que vejas um velhinho de túnica e barbas brancas? Sem que te lembres das orações que te obrigavam a papaguear na catequese? Das leituras estáticas e obscurantistas da Bíblia? Das beatas falsas? No cardeal Cerejeira? Da inquisição? Das populações embrutecidas ou fanáticas?

Pois é, primeiro, temos que perceber este lamaçal e denunciá-lo, limpar as palavras e conceitos, para então podermos pensar livremente e sem medos de fantasmas…

Até à próxima reflexão.

9 comentários:

Carlos Lopes disse...

Conclusão de um Deus… Apenas o meu... Aquele que segue cada passo, cada olhar. O Outro Deus, só com provas científicas.
No que diz a Própria Igreja, Olhamos só pelo Vaticano, e podemos tirar as nossas conclusões.

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Álvaro... que honra...

Um beijinho
Ana

Meinemliebe disse...

Li e acabo de reler a Reflexão I; sem favor, gostei do que li; primeiro, está bem escrito, o português é correcto e a cadencia entusiasma o leitor... e ainda me diziam outro dia que os outros blogs não nos inspiram... Claro! há sempre um tema, que embora adormecido em nós, é acordado e faz-nos mostrar que também temos uma opinião ou uma simples palavra sobro o assunto.
Quanto ao conteúdo, tiro aqui o meu chapéu, porque é mais uma pessoa que aborda temas que até há bem pouco tempo, eram tabu.
Repito, gostei do que li e partilho esse ponto de vista. Pela experiencia que tenho tido ao longo da vida, também me parece haver sempre manipulação e imposição para se ser crente. Creio que ser bom, considerar o nosso semelhente, não necessita de fundamentalismos...
Um abraço e vamos à parte II...

Maria Sem Frio Nem Casa disse...

Oh Alvaro... parece-me que já andas há tempo a mais a refectir no mesmo...

Dá notícias! Tens corrido? Ou apenas reflectido ?

Espero esteja tudo bem
Beijinho
Ana

Jorge Vicente disse...

Embora, grande Álvaro, eu respeite aquilo que a Igreja representou. Há uma grande beleza e simbologia na Liturgia, grande beleza nos grandes clássicos da Igreja, nos "santos" como São Tomás d'Aquino, São Francisco, Santo Agostinho e outros que tais. E isto sem falar nos místicos espanhóis.

Só que o problema é mesmo esse. Não se deve fazer da beleza da literatura e da simbologia um dogma. Eu gosto de ler certas orações, mas também considero a minha poesia, tanto exterior como interior, uma verdadeira oração. Talvez a maior de todas.

Um grande bioabraço
Jorge

Márcia Píramo disse...

Sabe, amigo, às vezes fico pensando que o que mais falta nos dias de hoje seja esse sentido do re-ligare, que na verdade é maior do que as religiões convencionais. Se nos ativermos ao re-ligare, veremos que realmente tudo tem a ver com tudo, e nós somos parte de uma grande teia cósmica maravilhosa...

Anónimo disse...

Eu sou daquelas pessoas que por tradição familiar, sou baptizada e até casei um dia, pela igreja, mas também nunca frequentei missas ou catequeses. No entanto a visão que tinha de Deus era de facto a que estava instituida. Neste momento após muitas buscas, que provavelmente começaram com mais intensidade quando li O Código da Vinci, (que considero um livro que se pode ler de duas maneiras, como obra pura de ficção, ou como um romance que apresenta pistas que se podem talvez seguir para procurar outras formas de ver Deus), tenho outra forma de ver DEUS.
Hoje o catolicismo não me diz nada, a Igreja catolica é uma fraude constante ainda nos dias de hoje, e quanto mais estudo, mais rejeito a igreja na sua totalidade, em contrapartida, nunca senti a minha fé em Deus tão grande e tão forte. Este paradoxo pode parecer absurdo, mas a realidade é esta, para sentir DEUS em toda a sua plenitude e força, não é necessarioe estar agarrado a dogmas impostos pela sociedade ou por medos pessoais. Basta SER e ter conscienciade que essa força existe em cada um de Nós. E quanto menos apegados estamos ao TER, mais conseguimos sentir o SER.
Muitos Beijos
Dulce

Anónimo disse...

A tua vida e tu, talvez sejam um minúsculo pedaçinho do meu deus...
Deixo-te um verso:

"Quem dança ...

Não é quem levanta poeira...

Quem dança

é quem reinventa o chão ! "

Mia Couto


Simpatia da

Helena

maria filomena disse...

Divagando pela NET, aqui vim parar... e cometi o abuso de fazer um Copy/paste da tua amiga:
"... Basta SER e ter consciencia de que essa força existe em cada um de Nós. E quanto menos apegados estamos ao TER, mais conseguimos sentir o SER."
O ioga e a meditação promove isso mesmo: o abandono de tudo... os pensamentos surgem e nós deixamo-los passar... sem reservas nem receios... Somos únicos... e não devemos abdicar da nossa verdade!
Vou ver se encontro a parte II...
Beijo